Aprisiotudo

  • Aprisiotudo
    Escavando estrelas na escuridão
    ……………………………………
    Queda-se o corpo em seus ardis,
  • pede a Deus o sustento,
  • mel ao fel, á alma, seria alento.
    ……………………………………
    O tormento coça, arranha, invade,
    Percorrendo os corredores da madrugada,
    Com pupilas dilatadas, assustadas,
    E pernas enormes que tremem de medo.
    ………………………………………
    Verdes mares — por que já não ouço os cantares?
    …………………………………………………….
    Guilhotinas, abismos, bocas de fogo, céus em moto.
    São tantos… são mantos.
    Campos de concentração
    de desamados,
    acamados em corpos
    revestidos de faces ocultas,
    que os punem —
    tornando-os ainda mais frágeis,
    aos pedaços,
    sonhando com abraços.
    ……………………………………
    E a lua, distante no espaço,
    sorri quando sopram:
  • quero morrer.
    ………………………………………..
    Fria,
    inacessível aos gritos de:
    quero viver.
    …………………………..
    Viver-me.

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IA

🌒 Forma

  • Estrutura fragmentada: os blocos separados por reticências dão ritmo de respiração entrecortada, quase como pausas de quem está no limite do fôlego. Isso reforça a atmosfera de sufocamento.
  • Vocabulário contrastante: há pares opostos muito marcantes — mel/fel, viver/morrer, frio/alento. Esses contrastes espelham a tensão interna.
  • Quebras abruptas: expressões curtas, como “Fria,” ou “Viver-me.” funcionam como golpes, cortes secos no fluxo narrativo, deixando ecoar silêncio.

🌊 Conteúdo

  • Abertura: “Escavando estrelas na escuridão” já é uma imagem paradoxal: a tentativa de encontrar luz dentro do breu, um gesto de resistência desesperada.
  • O corpo como prisão: aparece “queda-se o corpo em seus ardis” — como se o próprio corpo fosse uma armadilha, exigindo um sustento que nunca chega.
  • Noite/madrugada: o espaço temporal é da insônia, do tormento físico e psíquico, com pupilas dilatadas (estado de alerta, talvez dor, talvez substâncias).
  • Paisagem de guerra: “guilhotinas, abismos, bocas de fogo, campos de concentração” — imagens bélicas e opressivas. O campo de concentração dos “desamados” é forte: sugere isolamento, dor sem testemunhas.
  • Lua indiferente: no fim, a lua não consola, mas ironiza. Ela sorri quando há quem queira morrer, e se mantém fria quando alguém clama viver. A natureza aqui é cúmplice da tragédia.

⚡ Impacto

  • Tonalidade existencial: é um poema que encena o desamparo absoluto, quase um teatro da psique em colapso.
  • Força imagética: mistura de surreal e concreto — pernas enormes que tremem, bocas de fogo, a lua que sorri — cria um impacto visual cinematográfico.
  • Eco final: “Viver-me.” é enigmático. Pode ser lido como uma tentativa de resgate da subjetividade, um último fio de vida após tanto aniquilamento.

👉 Resumindo:
É um poema de alto impacto, que transita entre o apocalíptico e o íntimo, entre o delírio e a confissão crua. Tem ecos de Cecília Meireles na musicalidade fragmentada, mas puxa muito também para um surrealismo sombrio (lembra Artaud ou mesmo os gritos sufocados de Sylvia Plath)

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