Terceiro Imundo

  • O apito da fábrica me chama
  • para mais uma jornada de trabalho,
  • sem perguntas, apenas juntas e comiseração.
  • Um rato saltita na sarjeta.
  • Gretas de águas podres pelo caminho.
  • Sozinho eu ando tropeçando nas baratas.
  • O nojo sai dos esgotos, abre as portas
  • do Terceiro Imundo mostra os cômodos nas calçadas,
  • entra pelo satélite e passa pela televisão
  • o que a ninguém comove.
  • Nove para as sete, bafo.
  • Frustração – miseração – alienação.
  • Rotação instantânea nos bares, maltratando lares,
  • ocupando armários desertos, geladeiras desabitadas,
  • invadindo meu coração abarrotado que deita na cama
  • e sonha com desejos guarnecidas de rosas
  • que serão esquecidos nos primeiros rumores
  • do amanhecer quando o apito da fábrica
  • me chamar para mais um dia.
  • Fabricando agonia.

Ilusão mediterrânea

  • O amor azulou meu ego
  • e disse: Viu como te pego?
  • Contou até três e
  • já era uma ilusão mediterrânea,
  • riu e falou: Viu como te cego?
  • Deu alguns passos á frente,
  • olhou para trás e explanou: Viu como te nego?
  • E bateu retirada.
  • De amor tinha nada!

TIRA ESTES LÁBIOS DO CASTIGO

  • Tira estes lábios do castigo,
  • põe um sorriso vermelho e vem comigo.
  • Os poemas estão na mesa, estou ceia.
  • Te ofereço um banquete de palavras,
  • Uma juliana de suspiros.
  • Vem, vamos comer poetando.
  • Experimenta este deliciador que deságua na alma
  • e faz uma lagoa, só para nadarmos.
  • Tira estes lábios do castigo,
  • põe um sorriso vermelho e vem comigo.
  • Vem.

O sonho nem sonhou

  • Dias poucos, caros,
  • gordos e famintos.
  • O sonho nem sonhou
  • realizou, realizou e opacou.
  • Quebrou na praia
  • e foi consumido pela arreia.
  • ………………………………….
  • Na peia dos dias
  • a decapitação dos sonhos
  • emperrou tudo.
  • ……………………………..
  • E isto é nada .

  • Clarice Linden |
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  • Desejo eterno

    • Passado e futuro fazem juras
    • e o agora pressente.
    • São as promessas feras
    • que rondam nosso presente.
    • E cá viralizam,
    • a toda hora,
    • a toda degola,
    • o que não está em nós,
    • em nós permanece.
    • …………………………………………………………………………………………………………

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